Metanol: “Número real de mortes é muito maior que o divulgado”.
Especialista aponta “cenário de subnotificação crônica”.

Casos de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas voltaram a se espalhar pelo país, levantando dúvidas sobre a eficiência da fiscalização, a segurança do consumidor e a dimensão real das mortes causadas por esse tipo de crime.
De acordo com o Ministério da Saúde, até o início de outubro foram 24 casos confirmados e 235 suspeitos em investigação, com cinco mortes oficiais e 11 óbitos sob análise. O estado de São Paulo concentra a maior parte das notificações.
VENENO INVISÍVEL
O metanol é um álcool industrial usado em combustíveis, solventes e produtos de limpeza. Ao contrário do etanol, o metanol não é seguro para consumo humano: doses pequenas, entre 30 e 100 mililitros, podem causar cegueira, danos neurológicos irreversíveis e até a morte.
O perigo está na semelhança sensorial com o álcool etílico. O sabor, o cheiro e a aparência são praticamente idênticos. Isso faz com que adulteradores substituam parte do etanol por metanol em bebidas destiladas, especialmente em lotes clandestinos de cachaça, vodca e conhaque, para reduzir custos e aumentar o lucro.
– Não é acidente, é crime. O metanol não aparece por erro técnico, ele é colocado de forma intencional. Estamos lidando com uma rede criminosa que lucra com a morte de pessoas. E o mais grave é que a resposta social a esse tipo de crime ainda é tímida – enfatiza Paula Eloize.
Em muitos municípios não há protocolo padronizado para coleta de amostras suspeitas de metanol, o que leva a subnotificações em larga escala.
– Há mortes que jamais entram nas estatísticas porque não há autópsia, e os sintomas são confundidos com outras causas clínicas. Isso mascara a real dimensão do problema. O que aparece nos relatórios é apenas a superfície de algo muito maior – explica.
Essa lacuna se reflete também no cenário internacional. Um levantamento do Médicos Sem Fronteiras (MSF) indica que, entre 1998 e 2025, mais de 40 mil pessoas foram intoxicadas e 14,4 mil morreram no mundo em decorrência de bebidas adulteradas com metanol.
UM DIVISOR DE ÁGUAS
Para a especialista, a crise do metanol deve ser tratada como um divisor de águas para a sociedade brasileira. Um ponto de inflexão em que consumidores, autoridades e comerciantes precisam assumir novos papéis.
– A sociedade precisa entender que segurança dos alimentos, e das bebidas, é um direito básico. O consumidor tem o direito de exigir rótulos, selos e informações claras sobre procedência. E o bar ou restaurante precisa ser parte ativa da solução, não da cadeia do risco – afirma.
– Podemos tratar o metanol como um susto passageiro, ou como o ponto de virada para um Brasil que exige segurança e transparência em tudo o que consome. Essa decisão, literalmente, está nas mãos de quem segura o próximo copo – conclui.
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