Tragédia no Texas, com 119 mortes, expõe omissão e alimenta teorias da conspiração.
A tragédia no Texas deve ultrapassar sozinha o número de mortes causadas por inundações em 2024 (145) em todo os Estados Unidos.

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O governador do Texas, Greg Abbott, relativizou os questionamentos sobre responsabilidades nas respostas às enchentes que mataram ao menos 119 pessoas e deixaram 173 desaparecidos no estado. Segundo ele, “os times perdedores são aqueles que tentam apontar quem é o culpado”, enquanto os campeões respondem: “Nós conseguimos”.Não há ainda uma investigação formal sobre a possível falha das previsões e alertas. Abbott, além de minimizar a procura por responsáveis, afirmou que “a principal tarefa agora continua sendo localizar todos os afetados por esta enchente”.
A partir dos modelos meteorológicos mais utilizados no país, o jornal americano indica que o Serviço Nacional de Meteorologia tinha motivos para alertar sobre riscos maiores de inundações. Meteorologistas ouvidos pelo Post afirmam que as previsões se basearam nas informações disponíveis e levaram em conta a maneira com que informações alarmantes podem ser recebidas pela população.
Um cargo importante nesse tipo de acontecimento, o meteorologista de coordenação de alertas, está vago no escritório do Serviço de Meteorologia de Austin/San Antonio desde abril, quando o antigo responsável se demitiu -ele foi um dos centenas de funcionários da agência que aceitaram a oferta de demissão voluntária do governo Trump.
A tragédia no Texas deve ultrapassar sozinha o número de mortes causadas por inundações em 2024 (145) em todo o país, já muito além da média dos últimos 25 anos, que é de 85 mortes. De acordo com o serviço americano de meteorologia, houve uma inversão histórica nos últimos dez anos em relação aos fatores de maior perigo: as inundações de água doce -que ocorrem durante chuvas fortes e rios cheios- matam mais que as marés de tempestade -que ocorrem quando ventos fortes empurram a água do mar para a costa.
Segundo especialistas, isso se deve tanto à melhoria dos sistemas de alerta nos casos de eventos extremos no litoral quanto ao aquecimento dos oceanos e da atmosfera, que permite que as tempestades levem mais chuvas para áreas como a região montanhosa do Texas, a centenas de quilômetros do mar.
Dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da ONU para questões do clima, indicam que eventos climáticos extremos como secas, enchentes, deslizamentos de terra, tempestades e incêndios mais do que triplicaram ao longo dos últimos 50 anos em consequência do aquecimento global.
Outro órgão ligado à ONU, o IPCC (Painel Intergovernamental para a Mudança Climática), já afirmou em relatório que hoje é inequívoco que parte dessas mudanças foi causada pela ação humana.
A despeito do embasamento científico robusto, movimentos de extrema direita nos EUA começaram a publicar numerosas teorias da conspiração acerca das causas da tragédias no Texas. Em publicações que distorcem dados ou escrevem números sem lastro na realidade, usuários sugerem que o clima extremo tem sido controlado e manipulado por autoridades do governo americano.
“Preciso de alguém que investigue quem foi o responsável por isso”, publicou Pete Chambers, um ex-integrante das forças especiais americanas e figura frequente na extrema direita que já organizou um comboio armado até a fronteira do Texas. “Quando foi a última semeadura de nuvens?”, questionou, citando uma das supostas formas pelas quais, segundo os conspiracionistas, o governo estaria controlando as condições climáticas.
Uma das figuras mais emblemáticas da extrema direita americana, Mike Flynn, republicou o conteúdo de Chambers e indagou: “Alguém sabe responder a isso?” O ex-conselheiro de segurança nacional de Trump foi uma das pessoas que jurou lealdade ao movimento QAnon, que afirma haver um obscuro “estado profundo” de esquerda que age contra o presidente Donald Trump.
Na mesma toada, o Congresso dos EUA ecoou parte desses questionamentos. A congressista republicana da Geórgia, Marjorie Taylor Greene -aliada de Trump, expulsa de comitês da Câmara em 2021 por declarações conspiratórias e negacionistas- apresentou um projeto de lei “que proíbe a injeção, liberação ou dispersão de produtos químicos ou substâncias na atmosfera com o propósito expresso de alterar o tempo, a temperatura, o clima ou a intensidade da luz solar”. Segundo a proposta, agir para tal “será considerado um crime grave”.
Por Folhapress
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