A Venezuela vive um novo holocausto
PLINIO VICENTE*
A história da Venezuela é a história da América Latina e é a história do fracasso. A pátria que Simón Bolívar idealizou, democrática e igualitária, humana e solidária, desmoronou e se transformou em um depósito de lixo, alimentado não pelo exército do socialismo, mas por militares que, sob a proteção do ditador Nicolás Maduro, fazem fortuna com o narcotráfico
Sob o governo de Carlos Andrés Pérez, o Pacto de Puntofijo (capital do município de Carirubana, no estado
venezuelano de Falcón, onde foi assinado esse acordo) fez a Venezuela renascer das cinzas. Esse renascimento foi obra de um milagre construído por uma sociedade plural que, embora destruída pela socialização do populismo, parecia ter sido capaz de rejeitar todas as tentações totalitárias que vinham de Havana, elucubradas pelo regime castrista.
Pérez, popularmente conhecido por CAP, foi eleito presidente após uma transição democrática exemplar. Depois dele, mais de 90% dos cidadãos participaram do pleito presidencial boicotado por Cuba, escolhendo em dezembro de 1963 o social-democrata Raul Leoni presidente da República. Eram as segundas eleições que a Venezuela vivia sob o selo da paz democrática nos 200 anos da República.
Para se ter ideia de como era frágil a soberania venezuelana, contêineres com armas vindo de Cuba foram apreendidos antes que fizessem explodir as eleições presidenciais. O povo venezuelano, em especial o campesinato, recém-nascido para a democracia, foi leal e fiel aos esforços para desmilitarizar e civilizar o país. Tanto que o historiador inglês Hugh Thomas destacou essas eleições como um dos eventos mais importantes da história latino-americana contemporânea. Mais tarde, em uma alternância exemplar, o social-cristão Rafael Caldera foi eleito, derrotando por uma estreita margem de votos o candidato da socialdemocracia, Gonzalo Barrios.
Nessa época a América hispânica não sabia o que era independência política, refém dos golpes dados por suas elites aristocráticas, que sustentavam tiranias, ditadores, senhores da guerra, anarquia, fome e miséria. A Venezuela, apesar da aparente abundância da sua petro-democracia, não teve um mínimo de seriedade suficiente para entender que todas essas pompas eram ilusórias, que toda essa riqueza era flor de um dia; que na América Latina a falta de civilidade era assustadora, que o continente era, até então, a história de um fracasso.
A história da Venezuela é a história da América Latina e é a história do fracasso. A pátria que Simón Bolívar idealizou, democrática e igualitária, humana e solidária, desmoronou e se transformou em um depósito de lixo, alimentado não pelo exército do socialismo, mas por militares que, sob a proteção do ditador Nicolás Maduro, fazem fortuna com o narcotráfico.

Foto:Liga Socialista
A perda da consciência histórica – que mergulhou os venezuelanos numa triste e miserável crise – é também a tônica de um diálogo fracassado. Na República Dominicana, governo e oposição referendam de modo recorrente todos os males de uma ditadura sustentada pela barbárie chavista, incrivelmente celebrada em uma ilha do Caribe. Enquanto isso, o desabastecimento, a fome, a desnutrição, a falta de medicamentos e as doenças alimentam um novo holocausto.
Roraima em Tempo
